Porque terei meu filho de parto normal

“Você é muito corajosa” com certeza está no top 10 de frases que mais ouço quando conto minha escolha pelo parto normal humanizado. “Ué, mas pode?” vem logo em seguida. A maioria das pessoas duvidam da nossa capacidade de parir, ainda mais se tivermos um filho nascido de cesárea. Eu respondo é claro que pode! Ainda mais porque não quero passar pelo processo de cesárea de novo.

Eu sempre quis o parto normal. Assim, de esperar sentir as dores e fazer força para o bebê sair e pronto! Foi assim que eu imaginei que seria quando engravidei da minha primeira filha. Eu, que sou do tipo que não toma remédio nem para dor de cabeça, não me imaginava numa sala de cirurgia para ter um bebê. Mas foi lá que fui parar, naquele ambiente frio onde se falavam da vida de outros profissionais enquanto me passavam a faca. Em pouco mais de dez minutos o médico soltou com pouca emoção: “nasceu essa menina linda”. Não lembro se ela chorou. Não fui tocada com emoção, mas ficava por trás daquele pano imaginando como ela era. Não pude tocar minha filha, naquela posição mal conseguia vê-la quando a aproximaram e só vi o quanto ela se parecia com o pai quando ele me mostrou uma foto. Fiquei um tempão sozinha numa sala com outras pessoas acamadas, sentindo frio por causa dos efeitos da anestesia. Depois veio a enfermeira trazê-la: “tá na hora dela mamar”. Eu gritei: “volta aqui, não sei fazer isso.”

No dia seguinte, quando fui conversar com o médico, ele veio me explicar a mancha roxa no braço da minha filha. “Eu tive que puxar com força, ela se agarrou ao útero” e riu. Eu ri junto, parecia bonitinho aquele tom de “ela não queria nascer”. Essa marca, que é do polegar do médico, ainda está presente em nossas vidas. Apesar de mais clara sobre a pele da minha Beatriz de 1 ano e 5 meses, agora que estou mais esclarecida só consigo imaginar que ela foi tirada de mim com violência e que este é o registro oficial disso.

A marca da violência

A marca da violência

E se ela realmente não quisesse nascer? Faz mais sentido agora imaginar que ainda não era a hora e que ela tinha todo o direito de esperar o tempo dela acontecer. Eu tinha o direito de esperar esse tempo acontecer, apenas não sabia. Não me preparei para ser submetida à uma cirurgia, mas não me empoderei de conhecimento para evitar que ela acontecesse. Apesar de enganada, ainda sinto culpa por não ter buscado mais informações.

Acho que Deus olhou pra mim e disse: “filha, tenta de novo e faz direito dessa vez!”. Uma segunda chance me foi dada. Em pouco menos de um ano, engravidei novamente. Não planejei isso, mas enxergo como uma oportunidade que, por pouco, não acabaria em cesárea de novo. Continuei com o mesmo médico que de cara sentenciou: “será outra cesárea!”. Fiquei arrasada. Lembrei do quanto foi dolorida a recuperação, de como aquele corte me incomodava física e psicologicamente. Aceitei.

O tempo passou e com ele 2014 veio dar o ar de sua graça com um relato lindo de parto natural após cesárea com intervalo de 1 ano e 7 meses. Quando li o relato do nascimento da segunda filha da dra Flávia, fiquei fora de mim e só conseguia imaginar: Eu também posso!!! Mesmo com a gravidez avançada, corri atrás e descobri outras mulheres empoderadas que não caíram no conto dos obstestras: “uma vez cesárea, sempre cesárea!”. Aqui em Brasília mesmo, bem pertinho de mim, a Alessandra teve seu Emmanuel num parto humanizado lindo após uma cesárea recente. Foram 153 horas de bolsa rota e 12 horas de trabalho de parto, se ela não tivesse se empoderado, teria ido de cara para a faca. Que orgulho dessa mulher, gente!

Alê e Emanuel após o parto humanizado

Alê e Emanuel após o parto humanizado

Artur ainda não nasceu, mas está no caminho para chegar ao mundo da forma mais natural possível. Se ao fim ele nascer de cesárea, será por motivos reais. Não permitirei outra cesárea eletiva. E por que ele nascerá de parto normal? Eu poderia enumerar n motivos aqui, como respeito ao meu direito, à minha capacidade, a não ser submetida e nem submeter meu filho à violência obstétrica, porque a recuperação é mais rápida, porque o bebê chega ao mundo com mais carinho… mas vou dizer só um: por respeito ao tempo de nascer! Respeitar o tempo de nascer é promover saúde para o bebê, autonomia para a mãe e evitar tudo o que eu e milhares e milhares de outras mulheres passam diariamente na hora de ter seus filhos.

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