Por favor, não se ofenda

Olá, mamãe aí do outro lado da telinha. Permita que eu me apresente. Meu nome é Jéssica. Tenho 24 anos e sou mãe de duas preciosidades. Beatriz, de 1 ano e 6 meses, e Artur, de 23 dias.

Assim como você, amo meus filhos mais do que tudo na minha vida. Sou tão mãe quanto você, que rala o dia inteiro – dentro ou fora de casa – para garantir o melhor para quem nasceu de você. Portanto, quero que saiba que não me julgo mais ou menos mãe do que você. Simplesmente sou tanto quanto.

Recentemente, descobri muitas coisas sobre o nascimento de pessoas no Brasil. Descobri coisas boas e nem tão boas assim. Como eu estava gestante, resolvi estudar cada vez mais o assunto. Me senti instigada. Afinal, aquilo tudo dizia respeito a mim e ao meu filho também.

Estudando, descobri que minha filha não precisava nascer de cesárea, como havia sido. Nascendo assim, ela e eu estávamos expostas a quase 5 vezes mais chances de morte materna ou infecções do que se houvesse nascido de parto normal. Porém, naquela época, minha única fonte de informação era o meu ginecologista obstetra. Eu confiava cegamente nele, fiz exatamente tudo do jeitinho que ele orientou durante toda a gestação e no pós-operatório. Minha filha nasceu saudável, apesar de carregar até hoje a digital do polegar do obstetra no bracinho. Descobri depois, mas ela havia sido tirada à força da minha barriga. Além das 41 semanas de gestação, o médico disse que a cesárea foi a melhor escolha mesmo, pois ela estava com uma circular de cordão. Lembro bem do sonoro “graças a Deus foi cesárea” que eu disse após saber disso.

Até que na primeira consulta com o pediatra, essa satisfação toda começou a ser questionada. Quando falei a ele sobre o porquê da cesárea, dando ênfase à circular de cordão, ele foi categórico: “neste caso seria muito melhor ter sido um parto normal”. Fiquei encucada, mas preferi não entrar em detalhes. Eu não queria perder a razão em dizer que a cesárea havido sido a melhor escolha.

O tempo passou, não muito, mas passou e engravidei novamente. Era a minha chance de ter um parto normal, pensei. Voltei ao mesmo obstetra toda confiante: “será que dessa vez vai ser normal?”. A resposta dele doeu como um tapa na cara. “Não. Uma vez cesárea, sempre cesárea. Ainda mais você, que nem completou dois anos da cirurgia anterior”. Fiquei bem triste. A minha cabeça se voltou à minha mãe, que teve os quatro filhos por parto normal. À minha avó, que teve 9 filhos por parto normal. O que diabos havia de errado comigo? Eu não me sentia completa com aquela sentença.

Pesquisei um pouco e li sobre o VBAC – parto normal após cesárea. Descobri que o parto normal é mais indicado para quem tem cesariana prévia, que há menos riscos tanto para a mãe como para o bebê. Mas, infelizmente não achei nada sobre o intervalo ideal entre um e outro. Engoli, então, minha sentença e desencanei do PN.

Continuei com o pré-natal e lá pela 34ª semana recebi um presente. O link com o relato de uma obstetra que era cesarista, que teve seu segundo filho por parto normal após 1 ano e 7 meses da primeira ter nascido por cesárea eletiva. Ao terminar de ler o texto, parece que uma venda caiu dos meus olhos e eu ativei o meu lado persistente. Estava convicta: eu também consigo.

Pesquisei do básico aos temas mais complexos sobre nascimento. Encontrei outro obstetra que me disse: é possível, sim, que seu parto seja normal. Tudo aquilo me dava uma sensação de poder. E eu consegui! Tive meu filho de parto normal. Sem traumas ou cicatrizes.

Mas o mais importante foi o conhecimento que adquiri e que continuo adquirindo. E todo esse texto é pra falar sobre isso a você, que se ofende toda vez que vê uma mulher defendendo o parto normal. Por favor, não se ofenda! Não queremos julgar ninguém que tenha feito cesárea. Muitas de nós também já fizeram. Eu já fiz!

O que desejamos é compartilhar com todas a alegria de saber se tudo o que os médicos dizem é verdade ou não, se é possível ou não. Nós queremos que toda mulher possa fazer escolhas conscientes sobre o seu próprio corpo, sobre o seu próprio filho.

É permitir a todas o real livre arbítrio para escolher como seu filho virá ao mundo e não simplesmente deixar que alguém te induza a fazer escolhas baseadas em indicações que não são reais.

Além disso, é dar a todas que desejam o parto normal argumentos para ir contra o sistema que ainda é muito violento, que destrata e impõe intervenções traumáticas ao nascimento dos filhos dessas mulheres. Pois há diferenças berrantes entre o parto vaginal conduzido por profissionais despreparados e o parto em que a mulher é a verdadeira protagonista. Nós também sabemos disso. Ninguém aqui quer impor o parto normal a ninguém, ainda mais sabendo de toda violência obstétrica a qual a mulher está sujeita no modelo atual de atendimento à parturiente.

Obrigada por me ler. Espero ter conseguido me fazer entender. Escrevi este texto após muitos debates em redes sociais, onde só de falar em parto normal recebemos uma enxurrada de críticas e xingamentos, além do famoso “eu não sou menos mãe porque fiz cesárea”. Claro que não! Eu não me sinto menos mãe da Bia por tê-lá tido via cesárea. Também não me sinto mais mãe do Artur por tê-lo parido. Afinal ser mãe não é só colocar no mundo. Sou a mesma mãe para os dois. Sei que você também é.

9 comments

  1. Larissa says:

    Parabéns Jéssica, muito bom seu texto! Não sou mãe, ainda, mas também penso muito no parto normal, e por isso gostei muito de ler sua experiência com os dois tipos de parto. Beijos :*

    • Jéssica Macêdo says:

      Obrigada, Larissa! Que bom que você já está se empoderando antes mesmo de engravidar. É muito melhor assim. Beijo grande

  2. Jéssica Macêdo says:

    Kari, o SUS tem potencial, mas ainda está longe de ser tudo aquilo que deveria ser. Onde fica o hospital pelo qual você escolheu? O que você tem ouvido? Conheço histórias divinas de mulheres que conseguiram ter seu parto respeito pelo SUS e vou ficar aqui torcendo para que você também consiga. Se imponha!! A lei está ao seu lado e pelo que vejo você está se empoderando de conhecimento. Com certeza não cairá em nenhuma falácia médica. Tenha um acompanhante também empoderado. Na hora do parto, a gente fica na partolândia. É bom ter alguém bem informado cuidando da gente. Beijo grande

  3. Jéssica Macêdo says:

    Thiago, se você visse minha cara agora de felicidade. Felicidade e riso. Primeiro porque, caramba, é raro um homem comentar por aqui e fiquei imensamente feliz e tocada pelo seu interesse em levar informações para relação familiar de vocês. Depois por tudo que você falou sobre o parto da sua esposa. LINDO!! Não quer escrever um relato sob a ótica de uma pai para publicarmos aqui?!?! Fica a proposta. E depois, ahahah, dois reis de mesmo nome, recém chegados ao mundo, mas já com “diretrizes” futebolísticas bem diferentes. Adorei. Apesar do traje, seu filho é lindo. Muito leite pro pequeno, amor e felicidade pra esta família. E sim, não há problema algum amamentar deitada. Aliás, esta é a única alternativa pra muitas mulheres. Abração.

  4. Critita says:

    Olá queridos! chegando ao blog agora. Estou gestante do meu primeiro filho, 14 semanas de gestação, lendo sobre partos, cesárea, normal e afins. Gente…eu não consigo, por mais que tente, entender porque desta guerra ultimamente quanto ao tipo de parto escolhido (desde que não seja escolhido pelo médico, lógico!). Acredito que toda mulher deve ser respeitada. E ser respeitada em suas vontades. Me pego com medo, de ao decidir pela cesariana, ser crucificada por minha decisão. Ainda não sei o que quero, mas quero ter o desejo de querer! Querer normal, querer cesariana, de querer decidir este momento até onde for possível. Nem toda mulher sonha com parto normal, é fato! nem toda mãe deseja ser operada, é direito! mas parece que direito é apenas decidir pela naturalidade…não entendo! li que algumas mulheres foram atacadas na internet por falarem sobre sua decisão pelacesariana. Por que? acho tão violento quanto obrigarem uma mulher a não fazer parto normal. Vcs não acham? beijo gde, adorei o texto

    • Jéssica Macêdo says:

      Oi, Cris! Seja bem vinda <3

      O grande ponto é que as mulheres possam decidir conscientes de todos os riscos, seja o parto normal, seja o nascimento cirúrgico. Muitas são induzidas (têm que convicção que não, mas são) a optar pela cesariana, seja pelo médico, seja pela família ou amigos. As pessoas têm pouca informação a respeito e, infelizmente, muitos debates deixam de ser ricos por causa de discussões que perdem o tom e o foco. Em alguns espaços, a agressividade é real e isso é muito triste.

      Outra questão é, essas mulheres que foram atacadas, foram mesmo? Já vi centenas de milhares de vezes a pessoa já se sentir ofendida porque alguém disse: o parto normal é melhor. Ué, mas é mesmo. Se a criatura optou conscientemente pela cesariana, ela sabe disso. Não tem porque se ofender.

      Não apoio e acredito que desqualifica o debate quem ataca. Seja quem for, a pessoa que defende a cesárea ou a pessoa que defende o parto natural. A razão só existe quando o respeito é mantido.

      Boa gestação pra você e espero vê-la mais vezes aqui no blog.

      Beijocas

  5. Patricia Ferrari says:

    Olá Jéssica! Acabei de encontrar seu blog e ler este texto. Fico feliz de ter conseguido o seu tão sonhado PN. Mas me sinto no direito de vir emitir minha humilde opinião rs
    O problema não são mulheres que dizem que o normal ou natural é melhor, que cesárea é desnecessário e várias outras coisas que já sabemos. O problema é a falta de respeito. Sinto muito pelas mãezinhas que desejaram normal e foram induzidas a cesáreas sem necessidade. Sinto muito pelas que passaram pela cesárea por falta de informação. Sinto também pelas que conseguiram o PN mas não foi como sonhavam. E sinto muito também, pelas que optaram, conscientemente e assumindo os riscos, pela cesárea e não são respeitadas!
    Se essa foi uma escolha consciente, qual o problema?
    O que falta no mundo materno é respeito! Não sei quando nem como começou essa guerra da maternagem, mas tenho absoluta certeza que não deveria ter iniciado!
    Infelizmente hoje vemos ringues entre as mães da cesárea x mães do humanizado, mães que amamentam x mães que dão fórmulas, mães que trabalham x mães que ficam em casa… Gente!!!!! Onde isso vai parar não é?!
    No fim de tudo fica o clichê: MAIS AMOR, POR FAVOR!
    É isso que falta!
    Bjs e parabéns pelos filhotes! Tenho uma pequena princesa de 9 m esses e meio que enche minha vida de sentido, que chegou por cesárea consciente de uma mão que, sim, tem pavor da dor e assume!

    • Jéssica Macêdo says:

      Oi, Patricia! Muito obrigada por contribuir com sua opinião. E é exatamente sobre isso que o texto fala: não há motivo algum pra essa guerra entre mães. A guerra foi implantada pelo sistema. Assim como essa história de que mulher não é amiga da outra foi implantada pela mídia. Temos que nos unir mais.

      O texto fala sobre isso, da venda que me caiu dos olhos com o nascimento do meu segundo filho a respeito do parto no Brasil e que todas deveriam ter direito a perder essa venda. Assim as escolhas seriam conscientes de verdade.

      Volte mais vezes. Adorei te ler!

      Beijos e parabéns pela sua princesa. <3

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