Sobre a dor do parto

Na primeira gestação, a única dor que senti foi da bendita cesárea e seus pontos. Não entrei em trabalho de parto, portanto, não sabia quais seriam os sinais quando chegassem na segunda gestação. Por tudo que as pessoas diziam, por todos os “você é corajosa” que eu ouvia sempre ao falar que estava aguardando pelo parto normal, eu imaginava uma dor – desculpe o palavreado – escrota pra caralho e desde então eu ficava refletindo sobre suportar ou não a dor. Optei por suportar imaginando que tudo aquilo é passageiro. Esta sempre foi minha tática para situações incômodas.

Tive certeza que suportaria bem, quando a acupunturista me disse “você vai ter um parto normal tranquilamente. É muito resistente para a dor. Já estamos no nível 8 da eletroestimulação, tenho pacientes que não suportam o 2”. Verdade ou não, aquilo me deixou mais forte. Saí me gabando: sou resistente à dor. O nosso psicológico precisa de certos incentivos. Esse foi um dos que eu tive.

A forma como você recebe a dor a torna mais ou menos intensa. Descobri isso conversando com a minha doula. Ela me falou tanto sobre sentir prazer na dor, de imaginar a dor como algo gostoso e que ela trará o seu filho ao mundo, que acabei absorvendo de verdade aquelas palavras. “Sentir prazer na dor. Sentir prazer na dor. Sentir prazer na dor.” aquilo virou um mantra no meu íntimo. A cada contração, eu reforçava pra mim mesma “meu filho está chegando”.

Eu comecei a ter contrações com cólica, desritimadas, quase 48h antes do nascimento do Artur. As primeiras foram as piores, porque eu não estava pronta de verdade para recebê-las. Cheguei a pensar: não vou suportar. Se está assim no início, imagine no final. Mas o que me faltava naquelas primeiras dores era apoio emocional. Quando a doula chegou e conversou comigo, voltei a rir, a levar o dia normalmente. Esse foi o outro incentivo que precisava.

Depois vem o cuidado com o corpo durante este momento. Todos os exercícios que a doula me colocou para fazer durante o trabalho de parto foram fundamentais. Ter esse apoio “técnico” também faz a diferença. Em vez de ficar deitada, esperando a dor vir e senti-la por inteiro, como algo que me martirizava, eu fui pra rua andar, rebolei, subi escada. Movimentar-se assim, tirava grande peso da dor, deixando só prazer de sentí-la. Verdade!!! Mesmo cansada ao final, eu já estava viciada naquela dor, eu queria mais. No hora do expulsivo então, eu queria muito mais. Foi gostoso, foi orgástico, mas foi tão rápido que me imagino parindo várias vezes ao dia afim de resgatar um pouco daquela sensação.

“Ah! Jéssica, mas todo mundo fala que a dor do parto é mais infeliz e blá, blá, blá”. Eu não duvido que para muitas mulheres parir tenha sido traumatizante. Não ter esse apoio emocional, esse preparo psicológico e ficar refém de posições de conforto sabe Deus pra quem, realmente deve ser cruel. Acredito em todas que me dizem: eu cansei, não dei conta, não suportei a dor. A gente sofre tanta pressão, ouve tanto palpite, tantas histórias com desfechos ruins, que não conseguimos simplesmente concentrar em algo maior para passar pela dor de forma prazerosa. E aí está mais um dos motivos que me levam a falar tanto sobre humanização do parto: que toda mulher seja capaz de sentir prazer na dor. Para isso é preciso suporte emocional e bloqueio de tudo de ruim que nos dizem a respeito. Somos todas fortes, acredite!

14 comments

  1. Juliana MSC says:

    Tem que mudar a descrição acima ó “mãe da Beatriz e agora mãe do Artur” 🙂

  2. Paula Ramos says:

    Sempre que me perguntam sobre o meu parto eu repito o mesmo que você: “Esteja acompanhada de alguém pra te incentivar na hora, expulse de perto quem fica com dó da sua dor”.
    Mas no meu caso foi muito cansativo! Era uma sexta-feira. Eu estava com 38 semanas e 4 dias então não estava esperando entrar em TP. Pois bem, acordei cedo, fui pro trabalho dirigindo, carreguei jornal, bandeja, fui no sol quente buscar almoço (FEIJOADA), fui ao banco, fui fazer a última ecografia e no fim do expediente 17:30h começaram as cólicas(sacanagem nem pra começar mais cedo pra eu ir embora rs). Fui para casa buscar as coisas e depois hospital. Passei a madrugada toda em TP. Com um pãozinho de queijo na barriga (jejum para cesárea se fosse necessária), cansada, com sono dormindo encostada na parede de pé no intervalo das contrações de tamanho cansaço. Sem bola, sem doula, sem distração,sem um ambiente tranquilo e estimulante para um parto. Como eu consegui? Não sei! Na hora de fazer força (Às 8h no sábado) eu já estava morta, desfalecida de cansaço! Mas tudo foi possível graças ao apoio da minha obstetra mara Dra. Renata Coimbra que trabalhou bem o meu psicológico e me acompanhou a noite toda e do meu esposo que após um dia todo de trabalho venceu o cansaço pra me abraçar e incentivar! Às 9h Lís nasceu. Quem sabe no segundo filho eu recorra a toda estrutura e plano de parto que você elaborou! Só eu sei o quanto fez falta!

    • Jéssica Macêdo says:

      Que rico seu relato, Paulinha. É o outro lado da moeda. Não conheço a sua GO, mas pelo que você relatou ela é do tipo que respeita a vontade da mulher,né? Você a recomendaria para quem quer fazer parto humanizado? Beijos

      • Paula Ramos says:

        Com certeza! Ela acalma, respeita a vontade e lida super bem com a dor da parturiente! Não sei se ela faz humanizado, mas se faz só hospitalar…

    • Jéssica Macêdo says:

      Obrigada, Deborah!

      Espero que eu consiga ajudar ao menos uma gestante a ter um parto digno. Já me daria por satisfeita. Beijos

  3. Dani Urbano says:

    Je fico vendo seus relatos e penso caraca se eu tivesse tido tudo isso( apoio emocional,outra pessoa comigo alem do meu marido e uma estrutura) teria aguentado mais um pouco e não tinha pedido para a médica fazer o parto cesário. Porque a dor eu já estava sentindo mesmo.

    • Jéssica Macêdo says:

      Essas coisas fazem falta mesmo. Essa sensação que você está tendo é a mesma que tenho ao comparar o nascimento da Bia e do Artur. Ah se eu tivesse naquela época o conhecimento e apoio que tenho hoje… é assim mesmo. Mas há sempre novas oportunidades e se você permitir, posso estar ao seu lado quando acontecer. Beijo

  4. Camila Bentes says:

    Gratidao, Jessica. Recebo incentivo “sem querer” de quem nem conheço e isso é lindo. 🙂 Saiba que é um bem o que vc faz, compartilhando sua experiencia. neste momento, estou com 38+4, primeira bebê, poucas colicas… e muita FÉ e confiança! Um beijo!

    • Jéssica Macêdo says:

      Nossa, Camila, se você soubesse o quanto eu fico imensamente feliz em ler isso, saberia que a gratidão é toda minha. Estou torcendo por você. Se posso dar alguma dica, fique o máximo de tempo em casa quando você estiver em TP. Quando estamos em casa, o TP só evolui. Quando saímos ele sofre algumas interrupções. Minha doula disse que se eu tivesse feito parto domiciliar, meu trabalho de parto teria durado bem menos. Grande beijo e volta aqui pra contar como foi.

  5. Geiciane Mayara says:

    Tive meu primeiro filho e não senti nadinha nenhuma contração nada não sei nem como são essas dores foi cesaréa apenas me internei senti apenas as dores dos pontos, e estou gravida do meu segundo filho e tenho certeza que vai ser normal, mais não estou com medo porque e sei que mesmo que doa muito eu vou te meu anjinho nos braços e isso me dá muita força <3

    • Jéssica Macêdo says:

      Com certeza você, Geiciane, está fazendo uma escolha muito certa. Que seja abençoada com isso. A dor do parto é maravilhosa!

  6. Natalia says:

    Que maravilhoso esse post, gostei muito do que li e me sinto ainda mais confiante pra fazer o parto normal. Antes quando não tinha planos de engravidar pensava que só teria se fosse cesárea mas, hoje na minha primeira gestação com um bebê de apenas 14 semanas ainda (ai que agonia ainda não sei o sexo), a cirurgia da cesárea nem me passa pela cabeça. Parabéns pelo blog sou nova por aqui mas já estou amando. Bj!

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