Médico de convênio não faz PN

Nascimento humanizado tem um significado muito profundo na vida de quem tem a oportunidade de vivenciar um. Começa no descobrimento das diferenças entre nascer pela vagina com intervenções e nascer pela vagina de forma respeitosa. Passa pela aceitação de que a cesárea é uma cirurgia de grande porte, com grandes riscos e que só deve ser alternativa em caso de real necessidade e não pura e livre escolha. E não finda! Quem alcança um parto humanizado e gosta de partilhar o bem, acaba se engajando no ativismo para que todas possam ser agraciadas com um bem que a natureza já lhes deu. Por isso, persisto em me informar ainda mais e compartilhar com vocês.

Quem opta pelo nascimento humanizado já sabe as diferenças entre as formas de nascer, mas talvez ainda não tenha conhecimento das dificuldades que irá encontrar pelo caminho. São muitas e boa parte esbarra em fontes de informação de qualidade ou em quesitos financeiros.

O médico, o sistema e tudo mais!

A maior dificuldade em se parir hoje não é o corpo da mulher e sim encontrar quem a permita fazê-lo. Eu explico! Assim que descobrimos a gravidez, procuramos um bom ginecologista obstetra que aceite o nosso convênio. Vide os grupos de mães no Facebook. São trocentas que perguntam, algumas já são esclarecidas de cara, outras ainda recebem umas indicações duvidosas. A verdade é que médico de convênio não faz PN e, quando faz, geralmente é o plantonista com um monte de intervenções pra que termine logo.

Mulheres procurando médico de convênio que faça PN em grupos de mãe no Facebook

Mulheres procurando médico de convênio que faça PN em grupos de mãe no Facebook

Eu sei,eu sei! O seu GO fofinho está dizendo que faz. Mas não faz! Ele vai inventar um monte de coisas para te convencer a fazer cesárea e ao final você vai dizer: “foi por escolha própria!”. Você vai ignorar todo o terrorismo que ele pode ter feito durante o pré-natal e ainda vai dizer: “ele salvou meu bebê”. Também sei que, “poxa vida! Já pago tanto pelo plano de saúde e não vou poder ganhar meu bebê da forma que eu quero pelo convênio?!”, é revoltante mas é o que tem pra hoje. Mas não se sinta tão mal, os exames da gravidez são caríssimos e o plano custeia. Já vale muito a pena!

Nascimentos por convênios

Nascimentos por convênios

Quer saber o motivo disso? Bom, suponha que um médico de convênio receba R$ 300,00 para acompanhar um parto normal e R$ 350 para fazer uma cesariana (são valores fictícios). Suponha também que o convênio pague a este médico R$ 150 por consulta e que ele atenda a cerca de 15 pacientes por dia em seu consultório (tem médico que atende a muito mais, as consultas não duram 10 minutos e a sala de espera está sempre lotada). Isso representa um ganho de R$ 2.250,00 por dia. Se ele tiver que desmarcar a agenda dele para acompanhar um trabalho de parto, irá perder R$ 1.950,00 em ganhos. Agora, se ele for lá, fizer a cesárea, que dura em média meia hora, poderá voltar para o seu consultório sem prejuízo algum. Você acha mesmo que ele irá abrir mão disso? Melhor ainda quando ele consegue marcar com antecedência, a agenda dele não se abala em nada.

Então vamos pro SUS! 

Não, pera! O SUS é para todos e todas, ao menos sua proposta é esta e eu acredito que um dia chegaremos lá. Seja rico ou pobre, o SUS  foi concebidos para atender a todo e qualquer cidadão, possui um modelo de referência, mas que na prática ainda não funciona por diversos fatores. Falta de recursos e falta de uma cultura que defenda o SUS de verdade, a maioria só sabe criticar e desmerecer. Os profissionais são poucos diante da demanda e muitos são prejudicados ou se beneficiam disso. Vou fugir do “a culpa é de quem ou do quê” e vou ao ponto que interessa: é raro atendimento verdadeiramente humanizado no SUS.

Os traumas vividos por muitas mulheres na rede pública de saúde na hora de ter seus filhos – como a posição ginecológica, ficar sem comer, não ter acompanhante, episiotomia, violência física e verbal – as impulsionam buscar a cesárea em novas gestações. Muitas dão um jeito de ter um plano de saúde ou de levantar um dinheiro só para isso.

Mas há exceções  no SUS. Pena é não ser regra. O Brasil vem adotando as casas de parto, um modelo humanizado de estrutura física para receber parturientes de baixo risco. São poucas ainda e com muitas limitações, mas quem sabem não se tornem a regra daqui a alguns anos?!

Violência Obstétrica

Violência Obstétrica | Infográfico: Emídio Martins

E não é que enquanto eu escrevia esse post, mais uma parturiente foi vítima de violência obstétrica aqui na Capital Federal?!

O Hospital Regional do Paranoá é o hospital referência da única Casa de Parto do DF. Não adianta ter CP se o hospital referência não .é humanizado

O Hospital Regional do Paranoá é o hospital referência da única Casa de Parto do DF. Não adianta ter CP se o hospital referência não é humanizado

Se não é convênio e se não é SUS, como faz?

A maioria acaba tendo o parto roubado ou muito traumático. Pois, fora as exceções, você deve pagar para ter um parto respeitoso e não é pouco, não. Os profissionais humanizados nadam contra a maré e isso tem custos altíssimos, inclusive a imagem deles sendo difamada por obstetras cesaristas. É, já vi de tudo! Mas medicina é trabalho, como todo e qualquer outro. Quem escolhe ser médico, escolhe viver de medicina, logo vai cobrar por isso.

Não posso dizer nada sobre o valor cobrado por estes profissionais. Eles ainda são poucos, a demanda ainda é maior que a oferta e, bem, eles têm as contas deles pra pagar. Não sei como se organiza a agenda de clínica de um médico em um dia que ele está acompanhando um trabalho de parto. Isso tem impacto financeiro, sem dúvidas, e provavelmente está incluso no valor do parto. Por isso vemos valores para muitas de nós impensáveis. A média que tenho visto é entre R$3mil e R$15mil. Há também as equipes humanizadas, sem médico, com enfermeiras obstétricas que desempenham papel tão bom quanto em gestações de risco habitual. Mas estas equipes também têm seus preços. Não são de graça.

Você pagaria isso para ter seu filho de parto normal e de forma respeitosa? Você pagaria R$ 50 mil numa festa de casamento? Assinaria sorrindo um cheque de R$ 11mil por uma festa infantil para uma criança de um ano que nem se lembrará daquilo? São valores que temos que avaliar bem se estamos investindo nosso dinheiro onde realmente importa.

Mas isso é para quem pode pagar. E quem não pode, como fica?

Sinceramente, ter um parto humanizado hoje é para uma elite, que mesmo se apertando, consegue custear a melhor forma de nascer. É coisa para poucos. Já vi gente fazendo de tudo para bancar o parto. Empréstimo, rifa, camiseta, body, doces, trocas de serviços… essas pessoas sabem valorizar o que é melhor na essência e não desisti. Por outro lado, tem gente que nem assim, o acesso está além do dinheiro, está na informação, no conhecimento que ainda falta.

Nascimentos gerais no Brasil

Nascimentos gerais no Brasil

Por isso é tão importante todo esse movimento em prol da humanização do nascimento. Temos que mudar o quadro e permitir que todas tenham acesso e respeito no nascimento dos seus filhos. É mais que justo. É uma causa de todos! Quanto mais gente tomar consciência disso, mais pressão o sistema sofrerá para mudanças positivas. Vamos acordar de verdade?!

3 comments

  1. Mariana Vargas Fernandes says:

    Infelizmente é uma realidade no Brasil, estou grávida de 5 meses, tenho plano de saúde e vou tentar parto normal com plantonista, sei que vão tentar me impurrar de todas as formas para uma cesárea, mas vou correr o risco, não tenho como bancar um chamado de médico particular.

    • Jéssica Macêdo says:

      Mariana,infelizmente a gente fica refém da conduta médica. Já que vai tentar normal na emergência, tenho algumas sugestões para você: lembre-se que muitas mulheres tem pródromos antes de entrar em trabalho de parto efetivo. Antes de ir para a maternidade, tenha certeza de que você está mesmo em trabalho de parto. Ter uma doula seria essencial neste caso. Vá para a maternidade quando realmente estiver parindo e esteja acompanhada de alguém que saiba das suas vontades. Alguém que possa, inclusive, brigar com o médico se ele tentar fazer qualquer coisa desnecessária com você – como uma episiotomia por exemplo. De qual cidade você é?! Aí nào tem Casa de Parto? Beijo

Responder