o que eu diria para o GO fofinho

“Como a gente não era mais natureba, com dois dias de nascido, demos leite artificial para o terceiro filho. Pra ver se ele dormia um pouco mais. Comprei o primeiro que vi no mercado”. Parece coisa de mãe em grupos de discussão no facebook, mas isso eu ouvi do meu ex GO fofinho. Logo após a consulta eu vomitei horrores. Talvez porque esse detalhe da vida pessoal dele me tenha doído como um soco no estômago.

Eu havia tido minha primeira consulta com o médico humanizado dois dias antes. Mudei, naquela ocasião, todos os parâmetros que tinha sobre “um bom e humano atendimento médico”. Não tem nada a ver com a impessoalidade da conversa, embora eu também goste disso, mas com o se inteirar das necessidades, medos e objetivos do paciente.

Confesso que já fui para a consulta com o GO fofo do convênio na defensiva, mas não esperava isso dele. Eu só pensava “como assim ele está me falando isso? Como assim uma mulher saudável, apta a amamentar deixa o filho ser submetido à uma fórmula láctea qualquer? Em nome do quê? Do descanso?”. Foi a consulta mais longa que tivemos desde a primeira gestação. Talvez porque eu era a última paciente do dia e ele estivesse afim de conversar, talvez porque o meu relógio biológico parecia não avançar no tempo com aquela conversa toda. Eu só queria sair dali.

Estou longe de ser o modelo ideal de mãe, ainda mais no quesito alimentação. Mas o mínimo eu faço e defendo “aleitamento materno exclusivo em livre demanda”. Foi um choque de ideais e de informações. Eu só consegui me despedir. Dei um abraço na secretária, de quem sempre gostei muito, e nem marquei o retorno.

Vida difícil essa de aleitamento materno exclusivo em livre demanda. #sqn

Vida difícil essa de aleitamento materno exclusivo em livre demanda. #sqn

Rompi com ele naquele instante. Seria impossível qualquer convivência pacífica ali. Ainda tenho vontade de somatizar todas as mágoas que tenho desse GO e escrever uma carta desabafo pra ele.

Seu doutor, eu pari, viu?! Aquela cesárea sem necessidade para a qual o senhor me empurrou, onde perdi muito sangue e precisei fazer transfusão não me impediu de parir 17 meses após. Meu útero não rompeu. Meu filho não morreu e, como pode ver, eu também não.

Estou bem viva, assim como essa cicatriz horrível que o senhor deixou no meu corpo e na minha alma. E por falar em marcas, o braço da minha filha ainda tem tatuado o seu polegar, gracas à violência com a qual o senhor a tirou de mim.

Mas não tem problema, não, seu doutor. Parir meu Artur me permitiu transcender o tempo e junto pari minha Beatriz também. Me livrei das inseguranças implantadas em mim por você e estou vivendo os melhores dias da minha vida. E acredite, essa ocitocina natural toda me permite vencer o cansaço diário sem precisar dar fórmulas ao meu filho. O senhor deveria experimentar, isso. Quem sabe assim, revele um profissional melhor dentro de você.

Abraços de uma ex-paciente mais consciente que você”

3 comments

    • Jéssica Macêdo says:

      Rita, só hoje vi seu comentário. Será? Talvez fosse uma boa. Um belo desabafo. Vou pensar nisso. Adoro teu blog. Beijos

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