Humanização do nascimento dever de todos (relato)

Quando decidi pelo parto normal, decidi também pela humanização do nascimento. Ou seja, não necessariamente um parto vaginal é humanizado e não necessariamente um parto humanizado significa nascimento humanizado. Em parte eu consegui. Meu parto vaginal foi humanizado. Na água, sem ocitocina sintética, sem fórceps, sem episiotomia, sem analgesia. Mérito meu e graças ao apoio de todos ao meu redor. O problema foi o que aconteceu depois com o meu bebê e é sobre isso que venho falar hoje. Não basta o obstetra ser humanizado, toda a equipe médica e de auxiliares devem ser também.

Eu fiz um plano de parto com orientações para o meu obstetra e para a equipe de neonatologia. Eu desmembrei a parte que falava diretamente à equipe de neonato para facilitar a vida deles. Deixei bem claro que meu esposo e eu nos responsabilizamos por decisões tomadas em cima daquele documento. Poxa! Era só seguir. Mas tenho certeza que a equipe sequer leu. Mas antes de entrar nesta questão, vamos avaliar o contexto todo daquele dia.

Como sabem, Artur nasceu na Maternidade Brasília. Escolhemos esta maternidade porque era a que o meu médico, dr. Petrus, tinha mais trânsito. Além disso ela dispõe de uma sala dita humanizada e havia trocado toda a sua equipe de neonatologistas no início do ano. Este último ponto foi o mais importante, pois a fama dos neonatologistas de lá era a pior possível. Disseram que a nova equipe vinha de hospitais de referência neste quesito e isso me tranquilizou.

Nossos problemas com a estrutura e administração da maternidade começou na entrada, e para uma maternidade que se vende como humanizada, seu corpo de colaboradores estão bem longe disso. O sistema estava fora do ar, ficamos um tempão do lado de fora aguardando para que eu pudesse ser avaliada pela médica da emergência. Quando finalmente fui entrar no consultório, a doula foi chamar meu esposo que estava empenhado no balcão de atendimento por causa do bendito sistema. Não queriam liberá-lo. Na segunda chamada, um senhor que fica na recepção veio chamar a atenção dizendo que só poderia um dos dois entrar comigo. Ou a doula, ou o marido. Bah! O marido ficou bravo, comentou com a médica e ela disse: “não tem isso. A doula pode entrar sim”. Daí Guto foi lá buscá-la e falar pro tal recepcionista que a médica havia liberado a entrada dela. O cara só pôde concordar.

A médica mandou internar, mas o sistema ainda estava fora e ficamos de molho do lado de fora da maternidade esperando liberar um quarto. O que não achei tão ruim, pois podemos ficar caminhando e exercitando. Mas o quarto só foi liberado quando dr. Petrus chegou. Procevê! Bem umas duas horas depois. Quando enfim chegamos ao quarto, não tinha lençol e, pasmem, só apareceram na hora que eu estava descendo para a sala humanizada. E tá lá no meu plano de parto, eu pedi essas coisas de hotelaria à disposição e não tive nem o básico.

Na chegada à sala humanizada, mesmo depois de vários pedidos do Dr. Petrus para deixarem-na pronta, chegamos lá e ficamos 20 minutos na porta esperando para abrirem a porta. Pois é, abrir uma porta. Lá dentro, mesmo eu que estava na partolândia, fiquei chocada com a forma que a chefe da enfermagem tratou o dr. Petrus. Toda arrogante e dando ordens nele. “O senhor não pode fazer nenhum tipo de aplicação. Só eu posso medicar aqui. Estamos entendidos?!” Oi, que WTF de mulher grossa era essa? Depois brigou com meu marido e veio com um paninho limpando o chão porque ele não poderia pisar ali. É chão, gente! Todo mundo pisa. Depois inventou que a banheira estava quebrada. Meu marido quase surtou. A banheira era um dos diferenciais por tudo que havíamos lido sobre amenizar a dor na água. O dr. Petrus já havia confirmado que a banheira estava funcionando. Então o marido entrou lá e a colocou pra encher. Pronto. Sem chorumelas.

O parto aconteceu e eu lembro da cara agoniada do pediatra pedindo para que entregasse logo o bebê a ele. Eu fiquei com meu filho no colo mesmo assim, enquanto eu quis e aguentei pois já estava muito cansada. Então meu marido foi acompanhar o bebê e a enfermeira grossa pra car*lho brigou com ele porque ele estava de sunga (ele entrou na água comigo). Ele disse: ENTÃO ESPEREM EU ME TROCAR. Esperaram? Não. Ele teve que sair como um louco pra garantir que nossas orientações fossem cumpridas. Deu tempo? Não. A esta altura já tinham aspirado Artur e dado a vitamina K. Só não usaram o nitrato de prata porque eu fiquei gritando da maca: NÃO USA O NITRATO! NÃO USA!. E o pediatra ficou puto e disse: “alguém vai ter que se responsabilizar por isso”. Então ele foi novamente informado que havia um documento assinado por nós dizendo pra não usar o nitrato.

A enfermeira grossa fazendo o primeiro atendimento desumanizado da vida do Artur

A enfermeira grossa fazendo o primeiro atendimento desumanizado da vida do Artur

Como se não bastasse, ignoraram a presença do meu marido e ficaram confabulando sobre minha cesárea anterior na frente dele: “a cesárea prévia é de um natimorto”. Bem, como sabem, minha primeira filha nasceu de cesárea e não, ela não é natimorta. Está bem viva desfrutando seu 1 ano e 9 meses de pura vitalidade. Meu marido apelou e nesta hora dr. Petrus interviu para evitar confusão. Foram muitas tensões que eu não vivi diretamente pois estava na partolândia.

Mas ao saber de tudo após, só tive uma certeza. O nascimento, para ser humanizado, deve contar com uma equipe completa desta forma. Por isso tanta gente faz questão de parto domiciliar, é mais garantido que tudo seja de forma realmente humanizada. Afinal, estamos falando de uma vida a caminho e não dá para tratar como só mais um. Aquela vida é muito especial para alguém, mas parece que os protocolos e a arrogância falam mais alto do que qualquer sentimento de humanidade dentro de certos profissionais. Escolhemos ter nosso filho no hospital, porque ainda não estávamos seguros dos benefícios X riscos de parto domiciliar. Mas, sem dúvidas, hoje eu o teria em casa.

 

 

3 comments

  1. Jazz says:

    Não dá para humanizar um estabelecimento. Nosso trabalho é de um a um… Cada profissional deve ter esse compromisso. Um “desumanizado” na equipe, atrapalha tudo.

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