Passos para uma paternidade ativa – reflexões

Os tempos mudaram, a sociedade evoluiu e homens e mulheres são perfeitamente capazes de desempenhar o mesmo trabalho. Temos aí uma presidenta, algumas mulheres [algumas porque proporcionalmente são poucas] em cargos de liderança, homens na cozinha, mulheres na construção civil. Enfim, diversos cenários que há poucas décadas eram inimagináveis. Mas, disso, vocês já sabem.

Quando evidenciamos essa mudança dentro da família, nas relações paternais, há ainda certa resistência. Criou-se o estereótipo de “mulher maravilha” que, ao trabalhar fora, realiza com maestria suas atividades profissionais e ainda é uma mãe amorosa, dedicada e uma esposa excepcional. Ou, quando esta se dedica a cuidar exclusivamente dos filhos, não se cansa porque isso “não dá trabalho”, logo ela deve estar sempre sorrindo e disponível para o marido – ou pra quem quer que seja. Na outra ponta tem o pai que, por ser homem, por trabalhar fora, por ser o guardião daquela família não precisa desempenhar tarefas que são “intrínsecas” e “exclusivas” da maternidade. Se o homem o faz é porque “ajuda” e não porque deveria ser seu papel também.

Vejamos. Quando falamos do pai da criança normalmente é assim: “fulano me ajuda muito. Ele troca a fralda do neném”. Ou “Ele é um paizão. Sempre me ajuda”. Ajuda. Por que “ajuda”? Não seria obrigação dele também esta e outras tarefas? Ainda que a mãe seja responsável por delimitar o papel do pai a apenas ajudante, cadê a proatividade desse pai em cobrar uma participação maior no trabalho que também é dele?

Estou escrevendo esse post em homenagem e baseada nas histórias de vida de amigas, na minha própria história e pelos desabafos recebidos durante a pesquisa “Paternidade Ativa”. Longe de ser uma crítica, o único objetivo é instigar homens e mulheres a pensarem sobre seus papeis diante dos seus filhos.

*“As madrugadas ficaram comigo porque, afinal de contas, ele trabalha e eu tenho o dia inteiro pra dormir… Oi?”

*“Eu me sinto invisível às vezes. Só as necessidades do bebê são consideradas. Eu também trabalho e meu trabalho é considerado menos importante.”

*“Dificuldade dos homens em entender que a vida depois dos filhos muda. A questão da liberdade de fazer as coisas que antes fazíamos e que hoje não é tão fácil de fazer. Sair, lazer, etc”

*“falta de diálogo e apoio à mãe como mulher.”

*”Na gravidez, ele não participou muito. Mas, segundo ele, caiu a ficha quando pegou nos braços. Adora brincar, dá atenção, educa, mas a parte de trocar, dar banho, alimentar só participa se eu realmente precisar, caso contrário, sempre sobra pra mim.”

As falas acima são algumas das recebidas durante a pesquisa e expõe um pouco da vivencia dessas mães na relação pais e filhos. Se você, homem, pai quer ser enxergado de outra forma, seja pela sua companheira, seja por seus filhos, que tal se colocar no lugar dela. Que tal tomar a iniciativa em vez de esperar o comando – muitas vezes mal recebido e executado de forma pouco qualitativa.

Exatamente aí outro ponto levantado por algumas participantes na pesquisa: a qualidade do cuidado dispensado pelo pai aos filhos. Alguns fazem com má vontade e de qualquer jeito. Vai aqui uma ajudinha de como ser proativo e manter a qualidade do “serviço prestado”:

  1. Trocar a fralda – o menino fez cocô. Leve-o até a superfície macia mais próxima, apanhe algodões, água e uma fralda. Abra a fralda, enrole e jogue no lixo. Molhe algodões e suavemente retire as fezes da pele do bebê. Caso a situação esteja calamitosa, lave em água corrente. Depois de limpo, coloque uma fralda limpa.
  2. Amamentar – a mulher vai amamentar o bebê, que tal auxiliá-la posicionando almofadas para não forçar a coluna e os braços? Quem sabe levar água e uns biscoitinhos.
  3. Banho – sugira a mulher que ela tome o banho dela sossegada, pois você ficará com o bebê e dará banho nele sozinho. Lembrando de já pegar a toalha, os produtos de higiene e separar a roupa e fralda.
  4. Consulta – até os oito meses, os bebês costumam ir ao pediatra mensalmente. Se interesse em você mesmo levar, marcar a consulta, o retorno, levar para vacinar e fazer exames.
  5. Adoeceu – a cria adoeceu e agora? Liga para o pediatra, peça uma orientação. Leve você mesmo para a consulta, lembrando de carregar junto a caderneta de saúde e o cartão do convênio (se houver).
  6. Creche/Escola – a criança já está na creche ou na escola, que tal dar uma olhada diariamente na agenda dela, checar se há recados, se está tudo bem. Também é bom parar um pouquinho e conversar com as tias/professoras.
  7. Comportamento – a criança está com um comportamento estranho, talvez até dando um certo trabalho. Sente com ela, pergunte antes de acusar, entenda seu filho. Essa coisa de “a mãe resolve” não está com nada.
  8. Roupas – as roupas da casa não se lavam sozinhas, muito menos as das crianças (neste caso, acontece o contrário). Separe as roupas e lave. Veja o que pode ir à máquina e o que não pode. Opa! Tem roupa com cocô? coloca num balde com um pouco de água e sabão. Isso se chama deixar de molho. Bem simples!

Aqui outra coisa que me deixou bem chocada na pesquisa. Como assim o pai cuida mais de um filho do que do outro ? Você é mais pai de um do que do outro? A mulher é mais mãe de um do que do outro? Várias relataram isso. Olha alguns exemplos:

*”Meu marido é pai dos meus dois filhos, mas a participação dele é mais ativa com um que com o outro.”

*”Tenho dois filhos com o mesmo homem e sua participação é diferente em cada filho. O primeiro se interessou bem mais nos cuidados físicos já com o mais novo é mais carinhoso e educador”.

Você pai, que a mulher vive pedindo as coisas, provavelmente já aprendeu alguma coisa, inclusive que há algumas rotinas na criação dos filhos. Como você já sabe fazer, que tal fazer por iniciativa própria?

*”Preciso ficar pedindo as coisas, mas vejo q não é por mal. Ele é dócil e companheiro e educa a nossa filha, mas nas tarefas dificilmente toma iniciativa. Não sei se é por ser pai de primeira viagem e tem medo de errar… ou acha que a mãe faz melhor.”

É alarmante o total desprendimento dos pais que não são casados com a mãe dos seus filho em relação à criação desses filhos. Quase todas as mulheres que não vivem uma relação próxima com o pai das crianças relatou distanciamento desses pais. Cara, não é porque você não mora com a cria que ela deixa de ser sua responsabilidade. Pagar a pensão no fim do mês também não te faz um bom pai. Tem que pagar a pensão, mas também tem que dar afeto, se interessar pelo o que cerceia a vida dessas criaturas que só existem porque você participou da “produção”.

*”O pai do meu filho fica pouquíssimo tempo com ele. Eu insisti na guarda compartilhada e ele não quis, terminei ficando apenas eu com a guarda e ele visita quando quer…”

*”Pai de pensão , paga a pensão achando que é favor, quando o assunto é fora disso se esquiva”

*”O pai do meu primeiro filho não participou ativamente da gestação e conheceu o filho com 6 meses. Depois disso mantem uma participação baixa, apenas nos finais de semana alternados mesmo. [..]”

Como disse, isso não é uma crítica generalizada. É um ponto de partida para que, cada um, com suas próprias motivações, reflita em como conduz suas relações. Para inspirar vocês, olha algumas boas declarações:

*”Sou muito feliz com meu esposo e por enquanto 2 filhos. Quero ter mais alguns!!!”

*”Quando tive minha filha meu marido só não me carregou no colo porque não precisou. Os primeiros 25 dias foi ele quem deu banho, me auxiliou na amamentação. Depois conforme foi crescendo foi participando menos quando o assunto é banho, frauda. Mas continua participativo, brinca corrige, adula.”

*”Não é desabafo, mas sim um agradecimento! Tenho a felicidade de ter um companheiro super presente na criação dos nossos filhos, desde a gestação, acompanhando cada passo. É uma pai extremamente presente, carinhoso e amoroso, que está sempre demonstrando seus sentimentos e se fazendo presente.”

Enfim, só gostaria de dizer o seguinte, “tu te tornas eternamente responsável por aqui que cativas”. Essa frase, famosíssima, do autor A. S. Exupéry no livro “O Pequeno Príncipe”, cabe perfeitamente para pais e mães. Filhos são pra sempre responsabilidade nossa. Vamos ter mais zelo, ser mais companheiros, dialogar mais. Com certeza, os filhos só têm a ganhar.

No mais, quero mandar um beijo a todos os pais que conheço que são ativos. A começar pelo meu, seu Braz! Até hoje cuida de mim. Meu maridão, Guto Carvalho. E, não poderia faltar, ao “Paizinho, Vírgula“, pois, além de ser super ativo (ninguém escreve um blog daqueles sem ter prática), é adepto da criação com apego. <3

 

Responder