Escolhas e prioridades por Barbara Winstanley

Caras leitoras, gostaria de convidá-las à fazer uma reflexão e uma autoavaliação. Mas, antes de mais nada, gostaria de antecipar que não desejo criticar nem diminuir ninguém.

Desde pequena, ouço declarações da minha mãe do tipo “Eu te amo tanto, que me jogaria na frente de um caminhão pra te salvar, se preciso fosse!”. Sempre fiquei admirada com tal afirmação, mas confesso que achava um tanto exagerada…até me tornar mãe!

Fiquei grávida aos 17 anos, há quase 9 anos atrás, ou seja, não tinha muito acesso à informação, a grupos de gestantes, parto e maternidade. Tudo era muito cru pra mim, eu tive de me virar, e confiar nos meus próprios instintos, embora não tivesse maturidade nenhuma, nem tampouco, experiência. Mas uma certeza eu tinha: Queria parto normal! Sim, por que minha mãe havia tido 2, e eu sempre ouvi que parto normal era mais saudável pra mãe e bebê, e cesárea só em últimos casos. Naquela época eu não era influenciada pelo sistema, ainda, por incrível que pareça. Acreditei veemente que iria parir, ainda mais por estar fazendo pré-natal pelo SUS.

Mas, com 41 semanas e alguns dias, o “sistema” bateu à minha porta, abusando da minha inexperiência e leiguice, e me convenceu à fazer uma cesariana por que a bebê “era muito grande”, e de fato, nasceu grandinha, com 4Kg e 53cm.

Nascimento Giovanna em 2009. Foram 6 segundos apenas de contato...

Nascimento Giovanna em 2009. Foram 6 segundos apenas de contato…

3 anos depois, engravidei novamente. Já nessa época, um pouco mais informada, não tive dúvidas que tentaria meu tão sonhado parto normal. Troquei de obstetra 5 vezes até achar uma que aceitasse fazer meu VBAC (parto normal após cesárea). Tentamos indução, por escolha minha, porque eu morava em outra cidade e me sentia insegura (medo de não dar tempo), e por que eu já estava com 41 semanas [apesar que a idade gestacional não indicar sozinha a indução do parto ou da cesariana], mas infelizmente, após quase 2 dias internada tentando, fui novamente pra cesárea, só que dessa vez, não fui enganada, mas sim, respeitada!!

Contudo, minhas duas cesáreas não foram bem digeridas por mim. Eu me sentia incompleta, mesmo tendo minhas filhas lindas e saudáveis. Mas já havia me conformado com os meus “não-partos”. Quatro anos mais tarde, eis que me vejo grávida pela terceira (e se Deus quiser, última!rs) vez. Dessa vez nada poderia sair errado, era minha chance de OURO, de fechar de vez essas cicatrizes da minha alma! Fui acolhida por tantas pessoas queridas, amigas, minha doula e, principalmente, pela minha obstetra que fez a minha segunda cesárea, e que já estava atuando no ramo da humanização do parto! Nossa, que sorte a minha!

Fiz um pré-natal maravilhoso, e finalmente, consegui parir, após 2 cesáreas prévias, uma bebê de 4,120Kg e 51cm, num parto totalmente natural (Isso mesmo! Sem medicação, sem episiotomia, sem anestesia, sem nada!), e por incrível que pareça, sem laceração, ou seja, períneo totalmente íntegro! Tudo isso, de forma humanizada, carinhosa e respeitosa! Trouxe minha terceira filha ao mundo pelas minhas próprias forças. A acolhi em meus braços, senti seu calor e não fomos separadas! Como uma amiga minha disse: PARIR É UMA REDENÇÃO! (Ainda mais depois de duas cesáreas, não desejadas.)

Parto da Valentina, maio de 2014

Parto da Valentina, maio de 2014

Amigas, onde quero chegar? Bom, como disse no começo do texto, na primeira gravidez, eu não tive informação. Fiz cesárea achando que era o certo e que salvaria minha bebê. Na segunda, me informei mais e busquei meu parto, embora não tenha conseguido. E na terceira, totalmente informada e empoderada, consegui parir minhas 3 filhas, num só parto! Que lindo isso né?!

Muita gente me pergunta até hoje, o porquê desse meu desejo tão “louco” de parir. Eu sempre respondi: Primeiro porque é o mais seguro, tanto pro meu bebê, quanto pra mim. Segundo, porque é mais respeitoso! Imagina um bebê, ainda em sua formação, no calor do ventre materno, dormindo, ser arrancado abruptamente do útero (correndo um grande risco de não estar 100% maduro, e precisar ir pra uma UTI), numa sala fria, e imediatamente separado da sua mãe, por HORAS, até que de fato, os dois possam se conhecer por completo.Eu acho de uma extrema crueldade, tanto com o bebê, quanto com a mãe, que esperou 9 meses pra conhecer seu(sua) filho(a).

Agora vem a minha pergunta: Qual mãe, não se atiraria na frente de um caminhão pra salvar um filho? Quem de nós (mães) pensaria duas vezes pra nos jogarmos, empurrando nossa cria pra fora do perigo? Quem de nós pararia por 5 segundos, e se questionaria: “Será que vai doer?”, “Será que vou morrer?” Com certeza, nenhuma de nós! Mas então eu faço outra pergunta: Que mãe, sabendo que a cesárea oferece 3,5 vezes mais risco pra si e pro bebê, opta por ela por medo da dor, entre outros motivos não plausíveis? Veja bem, estou falando de mães informadas. Mães que fizeram escolha consciente, e não as que foram induzidas à uma cesárea desnecessária. Estou falando de mães que sabem do benefício do parto normal e dos riscos de uma cesariana.

Sabe-se que o Brasil é campeão mundial de cesariana, chegando à 90% nas redes privadas, sendo que o recomendado pela OMS (Organização Mundial de Saúde) é de 15%. Ou seja, apenas 15% das mulheres REALMENTE precisam de uma cesariana, seja pra salvar a vida da mãe ou do bebê. As outras 85% não tem indicação real, o que gera um aumento dramático de prematuridade, bebês em UTIs neonatais, mortalidade entre outras consequências. Eu faço parte dessa estatística (de cesáreas desnecessárias), e creio que muitas de vocês fizeram também ou farão algum dia (mas eu torço pra que não!).

Brasil das Cesarianas

Brasil das Cesarianas

Mas sempre tem aquele discurso “Ah, mas fiz cesárea e meu filho está vivo e saudável!”. Sim, eu também fiz, minhas duas filhas estão vivas e saudáveis, mas eu jamais as colocaria em risco sem necessidade, CONSCIENTEMENTE!

Estamos numa era em que lutamos por vidas, por qualidade de vida e não por sobrevivência! Fica aqui meu convite, a todas vocês mães, grávidas e futuras mães, a buscarem informações de qualidade, artigos respaldados por evidências científicas, e não aceitarem inverdades ditas por médicos. Médicos não são deuses, eles não sabem de tudo, e acredite, a maioria age por interesses econômicos, não priorizando a saúde e segurança de suas pacientes e seus bebês.

Quanto a dor do parto…sim, dói, mas vale à pena! São dores suportáveis. Encare como um rito de passagem. Cada contração torna mais próximo o primeiro encontro com seu bebê. É lindo, quando vivido de forma respeitosa. Vale à pena!!

Um grande beijo à todas.

Por Barbara Winstanley, mãe da Isabella (8anos), Giovanna (5 anos) e Valentina (7 meses)

5 comments

  1. Miriam says:

    Estou grávida de 30 semanas e já tenho uma cesariana anterior, até o momento está tudo certo com meu obstetra que fez o parto da minha primeira filha para que seja outra cesarea. Não sei oq fazer, todos que converso só dizem que devo fazer a cesarea mesmo, que é mais seguro, o hospital que faz parto pelo meu convênio tb sempre induz à cesarea. Para fazer pelo Sus os hospitais aq são péssimos, minha cunhada teve a bexiga perfurada em seu parto. Não tenho acesso a nenhum hospital ou médico que faça o parto humanizado. Porque para cair em um Sus ou Santa Casa e tentar o normal eu não quero, aí sim é arriscar minha vida e da minha bb. Creio q está seja a real situação de muitas mulheres como eu, que querem sim o melhor pra ela e seus filhos, no entanto, pela situação e realidade do sistema de saúde, acabamos sem opção. Doulas ainda são luxo para a maioria infelizmente. Ainda estamos longe, muito longe dessa realidade.

    • Jéssica Macêdo says:

      Infelizmente, Miriam, o sistema não é muito favorável e leva muitas mulheres à mesa de cirurgia por conveniência médica, medo, despreparo, dentre outras coisas. Mas procure saber se na sua região há relatos de bons partos pelo SUS. É minoria, mas existe, sim, o SUS que dá certo. Beijo e boa hora pra você.

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