Mãe que trabalha fora – mais um causo

A maternidade afeta completamente a vida de uma mulher. Salvo exceções, para os homens ter filhos não significa nada ou quase nada em termos de mudança na rotina. Não é conversa de feminista, não, gente. É fato! É só analisar a forma, por exemplo, como seu chefe lida com a notícia de que alguém na sua equipe vai ter um bebê. Repara como ele se comporta quando esse alguém é uma mulher e quando esse alguém é um homem.

Mesmo mulheres na liderança tendem a enxergar a maternidade como um fator negativo em seu grupo de trabalho. A partir do momento em que se descobre uma gravidez, começam os cálculos sobre a licença maternidade, a obrigatoriedade de manter essa mulher na equipe; pensa-se também nas inúmeras vezes que ela terá de se ausentar do trabalho para ir às consultas de pré-natal, para levar o filho ao médico, para socorrê-lo na escola. Tudo isso é colocado na balança.

Levando em consideração esses fatores, numa entrevista de emprego em que há dois concorrentes à vaga com o perfil profissional muito semelhante, mas de sexo diferente, as chances da vaga ser ocupada pelo homem são muito maiores. Lembro que pouco antes de me descobrir grávida da Bia, fui chamada para trabalhar numa grande empresa. Fui bombardeada durante a entrevista pelas seguintes questões: você pretende ter filhos? quando você pretende ter filhos? quantos filhos você quer ter? por que você quer ter filhos?

Quando descobri que estava grávida, fiquei morrendo de medo de comunicar a gravidez porque meu modelo contratual de trabalho não resguardava os meus direitos como trabalhadora. Aquelas perguntas ficaram martelando na minha cabeça. Ao final deu tudo certo. Eu tinha o respeito dos meus colegas de trabalho, do meu chefe e o amparo da empresa, inclusive quando terminou a licença e voltei à labuta.

Já no meu retorno da licença-maternidade do Artur, encontrei um cenário diferente. Era um cargo de confiança dentro do governo, já no primeiro dia após o fim da licença, fui informada de que meu cargo seria passado à outra pessoa e eu ficaria com o dela. Em termo de tarefas, não havia muita diferença. Em termos de salário, perdi 50% do meu com esta mudança. A justificativa que recebi é que a pessoa de posse do meu cargo – que eu ocupava há um ano e meio – faria um trabalho diferenciado. Pensei que seria alguém muito experiente, com uma puta jornada de trabalho. Na verdade não. Era uma rapaz, de idade igual a minha, porém recém-formado e pouca experiência. Poderia ser qualquer outra pessoa da equipe a perder o cargo, mas a escolhida fui eu, a única mãe.

Isso mexeu muito com a minha confiança. Até bem pouco tempo eu era uma profissional super requisitada. Quando fui para este órgão, fui por ser muito recomendada e pude escolher se permanecia no meu emprego da época ou se ia para lá. Aos poucos vi meu trabalho ser diminuído, já não participava mais das reuniões de equipe e tinha que colher informações no ar. A mudança de cargo só foi o começo. Fiquei realmente mal. Saía diariamente de lá chorando, então resolvi pedir minha demissão.

É uma decisão complicada, porque além de ter contas para pagar, temos uma reputação a zelar. Não queria me indispor com ninguém, queimar meu filme. Na minha área todos se conhecem, mas eu precisava sair daquele ambiente. Eu estudei, me aperfeiçoei, trabalhei dias e noite para no fim ser “desclassificada” por ser mãe.

Esta é uma experiência minha, mas também é a realidade de muitas mulheres. Ainda tenho muita dificuldade de falar sobre isso porque coloca em cheque duas das coisas que sempre desejei: ser jornalista e ser mãe. Consigo visualizar perfeitamente a dificuldade do empregador quando uma funcionária se ausenta por um dia ou por meses por causa dos filhos, mas isso não deveria anular todo o potencial e capacidade de uma mulher trabalhadora – seja ela mãe ou não.

Aproveito para sugerir a leitura de uma matéria do Globo que fala exatamente disso, Gestantes são vítimas de abusos de patrões durante gravidez ou depois da licença. Tem vários casos citados ali, um pequeno retrato da nossa sociedade que ainda enxerga a mulher como menos capaz para os negócios e exclusivamente responsável pela casa, filhos e marido.

4 comments

  1. JOICEM says:

    ESTOU GRÁVIDA DE 9 SEMANAS, E DEPOIS QUE INFORMEI A GRAVIDEZ NO TRABALHO TUDO MUDOU, ATÉ SOFRI UMA PRESSÃO PARA PEDIR CONTA.

    • Jéssica Macêdo says:

      Joicem, isso não está certo!!! Não ceda à pressão e procure seus direitos. Se eu puder ajudar de alguma forma, conta comigo.

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