Os altos e baixos da amamentação

“Amamentar é uma droga! Você defende porque pra você foi muito fácil.” Foi mesmo, muito fácil…

 

A primeira mamada

Havia algumas horas que minha primeira filha havia nascido e eu a aguardava ansiosa em uma sala de recuperação enquanto sentia um frio descomunal e uma coceira horrenda (efeitos da anestesia aplicada para a cirurgia cesariana). Fiquei imaginando como seria seu rostinho, que até então conhecia apenas pela foto que seu pai havia me mostrado.

Então chegou uma enfermeira, a deitou nos meus braços e saiu dizendo “está na hora dela mamar”. O quê??? Como assim?? Volta aqui, eu não sei fazer isso. Ela voltou, chamou a colega e disse. “Ajuda essa mãezinha aqui que não sabe amamentar”. “Puxa aqui, aperta aqui, aproxima a cabeça dela e pronto! Ela está mamando!”. Ela saiu e eu fiquei observando e não demorou muito pra sua boquinha escorregar do meu seio. Como eu estava deitada, não sentia ainda minhas pernas, me bateu um desespero. Eu não conseguia fazê-la abocanhar novamente a mama. E do meu íntimo mais criativo, eu coloquei o meu dedo mindinho na sua boca. Beatriz o mamou um tempão.

Enquanto trocavam a minha maca encharcada de sangue, ela mamava meu mindinho. Enquanto nos levavam para o quarto, ela mamava meu dedo mindinho. Já no quarto, pedi ajuda. Meus seios estavam enormes. Eu sentia muita dor da cirurgia, não encontrava posição para amamentá-la. Me sugeriram fazer de lado. Me sugeriram chamar o pessoal do banco de leite pra me ajudar a ordenhar.

Medos

Fiquei cinco dias no hospital, havia tido uma complicação. Pedi ajuda ao banco de leite, mas tinha medo que eu não desse conta; Eu tinha medo que de cara dessem fórmula pra ela. Me ajudaram a ordenhar manualmente. Fiquei fascinada com a quantidade colostro que a enfermeira conseguia tirar do meu seio. Aos poucos fomos nos adaptando e Beatriz finalmente conseguia mamar. Os meus mamilos começaram a ficar irritantemente sensíveis, então meu esposo trouxe uma pomada de lanolina e uma concha. Não sei onde ele soube que aquilo seria bom, mas nos ajudou um bocado. Eu não havia lido nada a respeito.

Desespero

Quando finalmente estávamos em casa, me lembro da terceira noite o quanto eu chorava. Era muita dor e tristeza envolvidas. Me batia uma tristeza tão grande, que eu não conseguia explicar. Hoje sei que está relacionada à queda brusca de hormônios após o parto. Mas ali eu só queria chorar. Nessa noite desabafei um pouco com Deus: “Cara, está muito difícil. Muito!!! Me ajuda!”. Eu não fazia nada sozinha. Pra ir ao banheiro, dependia do marido pois não conseguia abaixar ou levantar minha calcinha. Banho na Beatriz só fui dar quando ela já tinha um mês de vida. Alguém sempre a trazia para eu amamentá-la, então eu ficava a maior parte do tempo com ela nos braços para não ficar dependendo dos outros e aproveitá-la ao máximo. Isso me exigia posições bem cansativas por longas horas. A única certeza que eu tinha era: farei o que for preciso, mas não vou fracassar nessa empreitada da amamentação. Então tudo fluiu e nós conseguimos!

Bia mamando e o pai servindo de apoio. Jardim Zoológico de Brasília

Bia mamando e o pai servindo de apoio. Jardim Zoológico de Brasília

Amamentação e trabalho

Um mês antes de retornar ao trabalho, fui a uma pediatra pedir apoio para manter o aleitamento exclusivo até os seis meses e ela disse: você vai ter que ordenhar um litro de leite por dia se quiser manter o aleitamento. Melhor iniciar a introdução alimentar. Ela estaria com quatro meses. Então fiz tudo que pude para estender meu período de licença e ao retornar ao trabalho, me informei sobre a sala de apoio à amamentação. Então, todos os dias eu ia duas vezes ao dia nesta salinha que ficava a quase 1km de distância da minha sala. Era em outro prédio. Entre reuniões, textos, reportagens e compromissos eu ia lá e ordenhava. Enchia potes e potes e congelava. No dia seguinte eu levava o leite congelado pra casa e deixava mais leite lá. Vez ou outra disponibilizava o leite pra doação. Conseguimos o aleitamento exclusivo até quase 6 meses. Foi pra mim uma grande vitória.

Acessórios

No meio dessa loucura, acabei aceitando a chupeta (a qual eu sempre fui taxativa em ser contra), veio a mamadeira (que foi o aporte dessa extensão do aleitamento materno). Mas minha menininha mamava e mamava muito bem. Sempre recebia elogios dos trocentos pediatras que visitamos pelo seu desenvolvimento graças ao aleitamento materno. Aos poucos as mamadas foram diminuindo em quantidade e duração e se tornaram apenas o caminho para fazê-la adormecer.

A nova gravidez e amamentação

Então eu fiquei grávida novamente. Fiquei ansiosa quanto a amamentação e a gestação. Perguntei ao médico e ele me tranquilizou: não precisa parar de amamentar por causa da gestação MAS já vi um caso que o recém-nascido ficou desnutrido porque o irmão mais velho mamava tudo. Se por um lado ele me tranquilizou, por outro me deixou super aflita. Não sabia o que fazer e decidi deixar rolar até o nascimento do mais novo.

O desmame

Mas antes de chegarmos lá, Beatriz simplesmente dispensou o peito para dormir. Ela tinha 1 ano e 2 meses e eu uma gestação de 24 semanas. Foi um alívio por diversos motivos: realmente, a gestação seguiu muito bem mesmo com Beatriz ainda mamando; não precisaria passar pelo desmame forçado quando o bebê nascesse (já que estava amedrontada com os causos do meu então ginecologista-obstetra) e tinha sido muito tranquilo tanto pra ela, quanto pra mim.

Amamentando pela segunda vez

Não posso negar, eu era um poço de auto-confiança quanto a amamentação. Quando Artur nascesse eu já sabia tudo, então seria tranquilo. Eu imaginava que amamentar não seria um problema em hipótese alguma. Afinal, eu fiz isso muito bem por 1 ano e dois meses e fariam apenas 3 meses que estava sem amamentar. Seria como andar de bicicleta. Meus seios já estariam calejados, então esse negócio de dor era coisa do passado.

Artur nasceu e foi para o seio na primeira hora de vida. Fora o cansaço, eu estava dona da situação. Consegui fazê-lo abocanhar o peito e me senti à vontade para amentá-lo deitada. Fomos pra casa e não vi problemas nos primeiros dias de vida. Tudo fluia muito bem.

A sensação de fracassar

Com 20 dias o pequeno Artur pegou um resfriado e aquilo quase me enlouqueceu. De fato, ele não tinha a mesma força de sucção da Bia para mamar, mas depois que adoeceu a coisa ficou pior. Ele recusava a mama esquerda e chorava muito na mama direita. Ele não conseguia respirar. Eu também não. Várias madrugadas em claro. Ele chorava, não conseguia mamar, eu chorava e o marido sugeriu “vamos dar uma chupeta pra ele!”. O quê? Aquela noite eu quis morrer. Foi como uma sentença: você é incapaz de amamentar seu filho, dê logo uma chupeta.

Fiquei muito mal. Fiquei deprimida. Fiquei envergonhada diante de toda a minha confiança que não me serviu de nada. Busquei então por uma pediatra renomada aqui da cidade especialista e apoiadora da amamentação. Santa aquela mulher!! Me mostrou o quanto a posição e pega para amamentar estavam erradas. Me mostrou exercícios (chatérrimos) para ajudar na melhora da pega e me disse: “você consegue! Não tem motivos pra não conseguir”. Eu me esforcei, choramos por algumas noites; tratamos o resfriado do Artur e aos poucos ele foi aumentando a força da sucção. Ainda era difícil conseguir fazê-lo mamar no seio esquerdo, mas persistimos.

Apoio e persistência

Foi muito difícil. Quis desistir algumas vezes. Era cansativo ter que reposicioná-lo várias vezes na mamada, retirar sua boca do seio, ajustar os lábios. Era complicado lidar com os palpites porque “você está muito cansada, você não está dando conta, ele chora demais, vai ficar doente…”. Mas eu me apegava as falas da pediatra “Não tem motivos pra não conseguir!”. E nós conseguimos!! Estamos, Artur e eu, nesta jornada há 1 ano e 4 meses, sem chupeta, sem mamadeira (e uma certa dificuldade para conseguir dormir uma noite inteira por causa do peito). E teve até momentos de mamadas compartilhadas com Beatriz (a curiosa).

Artur com 1 ano e  4 meses mamando enquanto eu uso o banheiro.

Artur com 1 ano e 4 meses mamando enquanto eu uso o banheiro.

No geral

Se por um lado amamentar te permite fortalecer o vínculo com o bebê, facilitar sua vida em não ter que fazer mamadeiras e poder fornecer alimento em qualquer lugar; você se prende a isto com força. Você pode deixar de comer várias coisas por causa da amamentação (sou fã irremediável das mães de alérgicos), você pode deixar de sair, você pode ter que mudar seus hábitos, você pode deixar de usar uma roupa que gostaria muito porque ela não é própria para amamentar. São as formas que você enxerga as dificuldades e recompensas que irão lhe permitir ou não amamentar da maneira e pelo tempo que você deseja.
Enfim…

Escrevi esse texto pra mostrar que amamentação não é tão bonito, muito menos fácil quanto parece ser. Ainda que seja a sua segunda, terceira, quarta, milésima viagem. Amamentar requer muita informação, força de vontade e doses de apoio. Gostaria que vocês soubessem: amamentar é um desafio com recompensas diárias.

2 comments

  1. Gabbe says:

    Pra mim foi “fácil” com aspas porque a Luna era viciada, ela dormia mamando, comecei a trabalhar mês passado, tive que tirar o peito pelo bem de nós duas, agora ela come bem, dorme bem, e eu também! hahahah

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