Uma viagem e um desmame

Recentemente fiz uma viagem de dez dias sem filhos e preciso muito organizar aqui meus sentimentos sobre este episódio. Fomos o marido e eu para uma conferência de TI em Portland (OR). Ele e o sócio sempre participam do evento e eu fui fazer a cobertura nas mídias sociais da empresa. Momento pensado, discutido e analisado meses antes. Com quem as crianças ficariam? Como seria pra elas, especialmente para Artur que mama? e muitas outras questões.

Para a empresa seria bom ter cobertura profissional da sua participação no evento e para mim uma oportunidade única de vivenciar e cobrir um evento internacional, algo quase que irrecusável. Quando falamos para Beatriz sobre a viagem, ela se empolgou de cara porque ficaria na casa da vovó. E, aparentemente, não há outro lugar no mundo em que ela prefira estar. Para Artur a questão era mais complexa: mama à noite inteira, tem o sono leve, dorme mal se não estou perto.

Desmame norturno

Ne tentativa de melhorar isso, começamos o desmame noturno gentil (confesso que nem sempre tão gentil). O pai se prontificou a cuidar dele sempre por todas as madrugadas, da hora de colocar pra dormir a todas as inúmeras vezes que ele acordasse no meio da noite. Assim foi, dois meses antes. Eu já estava esgotada desses 1 ano e 4 meses amamentando dia e noite. Quando voltei a trabalhar isso piorou porque ele me demandava ainda mais à noite e eu ia trabalhar só o caco. Aceitei sem pestanejar a proposta do marido.

Então ou ele dormia com as duas crianças ou Bia dormia comigo e ele com Artur. Só que Guto viaja com frequência e muitas vezes eu falhava na rotina de fazê-lo dormir sem peito. Para mim, era menos estressante dar logo o peito do que ter de vê-lo chorando ou lutando contra o sono. Claro, havia noites que, sim, eu conseguia fazê-lo adormecer só estando ao seu lado. Mas estas eram raras.

Criou-se um padrão. Artur acordava duas vezes na madrugada (bem menos do que antes do desmame noturno) e era sede (isso aconteceu nesta seca maravilhosa de Brasília). O pai lhe dava água, às vezes trocava a fralda e pronto, rapidamente ele voltava a dormir. Quando nada disso resolvia, o pai lavava o seu rosto e ia com ele pra sala. Fazia uma horinha com ele lá e depois retornavam pra cama. E ele dormia!!!

A viagem

Deixamos meus pais cientes desse padrão e seguimos para a viagem. No domingo, dia 4 de outubro, seria a última vez que Artur mamaria. Ele mamou pela manhã, antes de embarcarmos. Foram mais ou menos 24h entre aviões e salas de espera em aeroportos. Para chegar ao nosso destino, fizemos muitas escalas. Quando finalmente chegamos ao hotel, na noite do dia 5 de outubro meus seios estavam explodindo. Ainda produzindo muito leite para um bezerrinho que demandava muita produção.

Por três dias eu suportei os seios transbordando, mas não conseguia mais ordenhar com a mão. O marido foi atrás de uma conchinha ou algo que valesse e só encontrou uma bombinha extratora. Tirei o suficiente a penas para aliviar e não estimular ainda mais a produção.

jessica-gutonyc

Todos os dias falei com meus filhos e meus pais via Hangouts do Google. A ideia era participar de alguma forma do seu dia-a-dia, tentando entender o que havia passado no dia deles, contar um pouco do que estávamos vivendo e declarar todo o amor que sentimos por eles, mesmo distantes.

Conversando pelo Hangouts

Conversando pelo Hangouts

Aconteceu comigo o que acontece, provavelmente, com todos os pais: eu vivi a viagem imaginado “e se as crianças estivessem aqui…”. Cada parque, praça, local que visitamos. Só conseguia pensar em qual seria a reação dos meninos, qual seria o seu fascínio, como aproveitariam aquele momento. Saudade talvez defina!

Já do lado de cá, minha mãe relatou que tudo ocorria muito bem. As crianças estavam aproveitando e muito a estadia com os avós. Eles continuaram indo à creche. Artur dormiu quase todas as noites a noite toda. Nas noites mais agitadas, ela dava suco de maracujá pra ele. #tudonormalporaqui

O retorno

Meu medo era de alguma alteração no comportamento, mais do que da rotina propriamente dita. Minha mãe foi nos buscar no aeroporto com as crias. Artur estava dormindo, Bia nos reconheceu de longe. Quando entramos no carro ela ria e falava. Foi, como sempre é, muito linda. Artur acordou e levou um tempo para reconhecer tudo.

Eu estava sentada entre os dois no banco de trás. Artur me olhava de rabo de olho, sem esboçar nenhuma expressão. Desconfiado! Olhava, analisava. Até que disparou um sorriso, seguido de uma gargalhada. “Mamain”. Fiquei brincando com ele e com Bia no trajeto para casa.

Aproveitando o sol, o calor e a seca brasilienses

Aproveitando o sol, o calor e a seca brasilienses

Já em casa, fizemos tudo como faríamos se não houvesse esse hiato de 10 dias. Brincamos, seguimos com a rotina alimentar e do sono. Não houve peito. Não há mais mamadas noturnas, nem diurnas. Findou-se este ciclo. Eu não amamento mais. Gostaria de destacar também como foi bom para a mãe Jéssica esta viagem. Voltei mais paciente, mais apaixonada por meus filhos. O dia-a-dia nos causa estafa, cansaço, faz muita diferença você ter um minuto para você e ter tempo de sentir falta também. Isso fez muito bem para a nossa relação.

One comment

  1. patinass says:

    Não sei se meu comentário anterior foi, então estou mandando de novo.
    Bem corajosa você! Não sei se eu teria essa coragem, apesar de achar que a gente precisa de um tempo pra cuidar de nós!
    E você não sofreu por não amamentar mais?

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