Maternidade e autoimagem

Estava me olhando no espelho, nua, após o banho. Percebi que não reconheci aquela mulher do reflexo. Os seios levemente caídos, a barriga flácida, algumas estrias pelo bumbum. De onde veio aquilo tudo? Havia também olheiras profundas e um tanto de linhas de expressão que não estavam ali até bem pouco tempo. Quem era aquela mulher no espelho?

Aquelas marcas criando uma outra visão sobre si. Veio então uma lágrima escorrendo pelo rosto pelo desespero de não controlar aquela sensação de ter sido substituída. Estava diante de uma outra versão minha. Me entreguei à uma tristeza profunda. Me vesti rapidamente, como se quisesse esquecer tudo o que havia visto ali. Queria me esconder de mim mesma.

Nunca fui de me ater às coisas da vaidade. De ir ao salão toda semana, de estar sempre impecável para o mundo. Sempre me achei bem suficiente para mim mesma. De repente me deparei com outra Jéssica. Uma Jéssica com marcas de vida, carregadas de tristeza e alegrias. Passei o dia pensando naquilo. Passei os dias seguintes vidrada naquilo.

Não era só uma questão de imagem, a sensação era de ter me perdido de mim. Me senti sozinha como nunca antes. Sempre fui a minha melhor companhia, mas eu não estava mais ali. A menina divertida e desleixada havia dado lugar para uma mulher de expressão triste que tentava a todo custo encobrir o imutável.

Havia uma cobrança própria, mas havia uma cobrança dos outros. “Você é magra. E essa barriga aí?” “Ué, cadê peitos? Os meninos mamaram tudo?”. Puta mundo cruel que não cuida da própria vida e vem cobrar melhorias na vida dos outros. Mas a gente, no primeiro baque, só quer chorar. Só quer tristeza. Só quer descobrir o que fez de errado. Afinal, eu poderia me tornar uma pessoa fitness e marombeira. Por que não fiz?

Quando me dei conta, percebi a verdade: aquela, no espelho, era a Jéssica real. Eu não precisava me mudar, me impor uma rotina para mudar o meu corpo. Aquilo fazia parte de mim. Não precisava me sujeitar aquilo que nunca me apeteceu (academia, dietas, exercícios, quem sabe plásticas). Todas aquelas marcas contam histórias que são só minhas e maravilhosamente minhas. A cicatriz devastadora da cesárea trouxe minha filha. Os seios caídos sustentaram meus filhos exclusivamente por meses, lhes dando também conforto e amor. As perdas que já vivi e também as alegrias foram tão marcantes cada uma delas a ponto de se tornarem linhas na face. As estrias, o formato da barriga e do bumbum mostram o quanto sou capaz como ser humano. Couberam em mim duas criaturas que hoje alegram meus dias e me causam, sem remorso da minha parte, as noites em claro para fortalecer as olheiras. Veja, sou uma mulher real. Me vejo como uma pessoa real. Foi bom pra mim me enxergar assim. 🙂

6 comments

  1. Gabbe says:

    Até hoje o pessoal pergunta onde estão meus peitos e blablabla, apesar de que eu queria estar um pouco mais magra, a minha preocupação maior após maternidade foi e é sobre maturidade, eu engravidei meio nova, e o pai da minha bebê está comigo e controla toda a situação financeira, mas na mente, ao que parece, eu cresci e ele quer ser adolescente pra sempre :\ por mais que a gente saia nos fins de semana, os dois, ele nunca sabe a hora de parar, a hora de ir embora, a hora de crescer e parar de andar com certas pessoas que só levam ele pro buraco, isso sim me incomoda -.-

    p.s. desculpa o desabafo no comentário!

    • Jéssica Macêdo says:

      Que bom ler seu desabafo, Gabbe! Isso aqui também é pra isso. Obrigada! Este aspecto, do crescimento mesmo, é muito importante e geralmente ignorado. Força para você dar a volta por cima, querida. Um grande beijo.

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