Falando sobre morte para crianças

Morte é, no geral, um tema meio complicado pra todo mundo. Salvo exceções (tem doido pra tudo), não é uma notícia que gostamos de receber sobre alguém querido (também não é fácil dar a notícia). Mas no fim, todo mundo morre, todos iremos morrer e independente da crença individual de cada um, precisamos falar sobre isso com nossas crianças.

A minha primeira experiência com a morte foi a do pai dos meus irmãos maternos. Eu tinha uns 10 anos e simplesmente não entendi o comportamento desesperado e desolador da minha irmã ao receber a notícia. Achei exagerado, mas depois descobri o significado de morrer e hoje super entendo e acho bem proporcional a atitude dela.

Logo depois a morte passou a ser uma constante em minha vida. Minha avó materna, por quem eu nutria um amor de filha, se foi e em seguida minha melhor amiga, aos 14 anos. Minha avó paterna, um namorado e, mais recentemente, meu irmão David (já devo ter falo dele aqui algumas vezes). Houve ainda, neste percurso os animais.

Cada uma das perdas foram amplamente sentidas (e causam saudade até hoje), mas gradativamente me trouxeram uma aceitação maior ao destino final de todos nós: a morte.

Falando com crianças

Lá em casa, a morte é tratada, na medida do possível, como algo natural a todos. Da barata que “relaxa, filha, ela está morta” a “você não conhece esse tio porque ele morreu antes de você nascer”. Mas o que é a morte? Assim, pura e simplesmente orgânica. Como explicar isso para uma criança? Vou dizer que: sou espírita e acredito na reencarnação, mas não é desse tipo de explicação da qual estou falando (embora eu creia que facilite muito dar a resposta ofertada pela doutrina ou religião). Estou falando de explicar: aquele corpo se foi, não há vida nele e você nunca mais verá aquela pessoa (ou animal) naquela forma que um dia você conheceu.

Tem de haver delicadeza e muita objetividade para esclarecer isso para as crianças.

Por isso eu gosto muito, muito, muito mesmo da música Saiba do meu ídolo Arnaldo Antunes. Ela explica que toda pessoa um dia nasceu, foi bebê e vai morrer. Especialmente esta parte do vai morrer. É natural do ser humano, da vida.

Recentemente, há uma semana, perdemos uma gatinha para um tumor. Ela tinha pouco mais de idade do que a Beatriz, nossa primogênita. A Melissa era a gata caçula, digamos assim, e não esperávamos mesmo que ela fosse a primeira a partir. Mas foi e eu falei para Beatriz, antes mesmo da eutanásia da Mel: filha, talvez a Melzinha não volte. Talvez ela vá dormir com o papai do céu e ficará tudo bem.

Uma semana se passou e a Mel teve mesmo de ir e eu fui surpreendida pela Bia: “mamãe, a Mel foi dormir com o Papai do céu.” Sim, filha, ela vai ficar de lá olhando por nós. Houve um silêncio quando ela soltou em tom de ~sei o que estou dizendo~: “quando a Mel crescer, ela volta, mamãe”. Aí eu entendi o medo da pequena em relação à insetos mortos, por exemplo. Ela não entende o conceito de morte, ela não entende a morte orgânica como um fim.

Ela tem apenas 3 anos e 3 meses. Não gosto de mentir pras crianças e não poderia concordar com aquela afirmativa e expliquei: não, meu amor, ela não irá voltar. Aquele corpinho dela ficou muito doente e não tinha remédio para curá-lo. Vamos sempre lembrar dela, mas não a teremos aqui de novo.

Caberia aí um monte consolações com base na doutrina espírita ou alguma religião, mas preferi não ir além da matéria. O corpo falha, a vida se esvai e pronto, acaba ali. Ao menos aquele corpo, aquela vida. Quando ela for maior posso repassar para ela minha crença em reencarnação, mas por enquanto só quis deixar claro sobre o fim daquela oportunidade que tivemos de estar com a Melzinha.

— PS: nunca pesquisei sobre como falar de morte pros filhos, então fiz tudo com base na minha experiência e intuição. Se eu ler algo relevante volto aqui pra compartilhar e aceito sugestões também.