As birras em público e a vontade de sumir

Voltando para casa, me sentei numa poltrona do corredor do avião. A semana de trabalho havia sido longa e eu estava louca pra rever meus filhotes. Chegou perto de mim uma criança que berrava, chorava e dava pulos. Sua mãe chegou logo depois, acomodando sua bagagem no compartimento superior. Eles se sentariam ao meu lado. Ofereci passagem. O menino seguia gritando. A mãe pedindo para ele se sentar. Ele berrava “eu não vou se você não me der o brinquedo”. Ela tentando manter a calma, a compostura e os nervos.

O garoto devia ter mais ou menos 4 anos. De primeira, pensei: “que guri irritante”. Depois reparei nos olhares furiosos fitando a cena. A mãe, muito constrangida, colocou o garoto na marra em sua poltrona da janela. Ele se debatia e insistia no discurso de “não vou sem o brinquedo”. As pessoas seguiam olhando. Me sentei novamente, desliguei a chavinha do julgamento. Eu sabia exatamente o que ela estava passando.

Não faz muito tempo, passei pela mesma situação num shopping da cidade. Meu único desejo era ser invisível, que ninguém me olhasse, ninguém me julgasse. Tão pouco julgasse aqueles monstrinhos que berravam como se eu estivesse os espancando. Monstrinhos porque a situação toda me parecia um filme de terror. Um vigilante do shopping chegou a se aproximar para verificar se eu não estava, de fato, batendo nas crianças. Eu não estava. Tava desolada na porta do elevador pedindo para que eles se acalmassem e entrassem comigo.

Independente dos motivos das minhas crianças ou do garotinho do voo de ontem, as reações desmedidas deles assustam e provocam sentimentos nada confortáveis nos espectadores. Ninguém te olha em tom de “eu te entendo e está tudo bem”. É sempre um olhar de reprovação, apontando sua incapacidade de administrar a situação. Uma senhora, na fileira ao lado, seguiu a viagem olhando para a nossa fileira, como se esperasse mais capítulos daquele triste romance.

Por fim, o garotinho se acalmou e pediu, por muitas vezes, desculpas a mãe. E não, ele não era um monstrinho. E não, ela não era condescendente e merecia passar por aquilo. São momentos aos quais todos nós estamos sujeitos, especialmente quando se envolve sentimentos como a frustração. Ele estava frustrado. Ela estava frustrada, bem como eu muitas vezes me frustro e reajo muito mal a tudo. E está tudo bem.

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