Educação musical doméstica para crianças

Entre a maternidade ideal e a maternidade possível, há muitas nuances. Algumas delas baseadas no considerado correto, outras no mais fácil. Lá atrás, bem muito antes do primeiro positivo, eu havia concebido o seguinte mandamento: “não ouvirás funk”. Na minha cabeça de pouco mais de 18 anos, muito rock na veia e certa arrogância cultural, seria inaceitável um filho meu ouvindo funk.

Artur baterista

Os filhos vieram e ao máximo me esforcei e me esforço para cumprir este mandamento. Mas não mais pelos mesmos motivos. Antes era por descreditar a qualidade cultural do gênero e supervalorizar o meu gosto musical. Se hoje eles não ouvem deliberadamente é por eu não considerar adequado o teor de algumas músicas para a idade deles. Há muita sexualização, sim, e eu ainda não estou pronta para falar a respeito com eles. Nem eles para entender, não é mesmo?

Mas parei de pré-julgar o funk por ser funk. Me volto ao conteúdo, independente do gênero. O instrumental vai importar menos se estivermos diante de alguma letra empoderadora. Tem muita canção consagrada de MPB objetificando a mulher, por exemplo. Bem como muita banda de rock com músicas 100% sexuais. E tem funk trazendo identidade e força de uma parcela da sociedade comumente marginalizada. Não dá para generalizar e acho muito mais promissor não limitarmos as crianças a um estilo musical.

Tá, Jeska! Mas por que você está falando disso? Porque recebi uns elogios pelo bom gosto musical das crianças. Vistas/ouvidas cantando de Alceu Valença a Led Zeppelin. Mas as pessoas nem sabem que o Beatriz gosta mesmo é daquela música “do castigo de se apaixonar” e Artur ficou empolgadíssimo por me ver dançando “onda, onda, olha a onda” no bloquinho infantil de carnaval.

Era só isso mesmo. Para esclarecer que não existe uma ditadura musical por aqui. Há apenas a avaliação do teor quanto a idade do meu público. Nem mesmo educação musical. Prefiro deixar por conta deles as descobertas, as preferências e os “isso eu não ouço nunca mais”.